Superman | A gentileza é o novo Punk Rock

Superman é um dos heróis mais famosos e tradicionais da cultura pop, sendo um dos primeiros a fazer sucesso em larga escala nos quadrinhos, na TV e no cinema. Superman tem uma longa história nas suas adaptações. Iniciando em 1948, o personagem já foi interpretado por diversos atores, mas quem chamou mais atenção foi Christopher Reeve no filme de maior sucesso do herói. Reeve tem uma história não só nas câmeras (com seus 4 filmes do Superman), mas também fora delas, sendo um ator que deixou sua marca no mundo com seu trabalho ativista ao lado de sua esposa, Dana Reeve.

Em 2006, foi a vez de Brandon Routh, injustamente castigado pelo controverso Superman – O Retorno. Anos depois, Henry Cavill surge para vestir o manto no DCEU (DC Expanded Universe) nos filmes comandados por Zack Snyder. Esse Universo se iniciou em O Homem de Aço (2013) que mostra abordagem mais dramática de Snyder, que prosseguiu pelos filme conseguintes: Batman vs Superman (2016) e Liga da Justiça (2021). A trancos e barrancos, o DCEU sofreu com a baixa popularidade de seus filmes do cinema, quase que levando uma má fama (injusta) pela falta de qualidade. Agora, em 2025, vemos a DC se reorganizando em seu universo cinematográfico sob o comando de James Gunn.

James Gunn deixou sua marca no cinema com seu traço divertido, dinâmico e musical em filmes de super-herói. Sendo um nerd assíduo, ele demonstra controle não apena em sua adaptação, como sobre sua direção, colocando personagens muitas vezes patéticos e esquecidos nos quadrinhos em protagonismo, superando todas as expectativas. Foi assim com o seu Guardiões da Galáxia (2014 – 2023), com o seu Esquadrão Suicida (2021), Peacemaker (2022 – atualmente) e, agora, pode, de fato, trabalhar com um verdadeiro herói: Superman. Em um universo em reformulação, focando em construir uma nova versão e “retconando” obras anteriores para se encaixar com a nova liga.

Superman é um alívio dentro do gênero. Após uma série de fracassos genéricos, essa obra nos permite revisitar as origens do herói sem necessariamente, ser um filme de origem. Afinal, chega de filmes de origem, né? James Gunn entendeu o recado e não se preocupou em introduzir uma origem ao Superman de David Corenswet. Ele é o Superman e ponto, assim como Nicholas Hoult é apenas o Lex luthor. Nada precisa de explicação, entendemos sua relação como arqui-inimigos. E isso não se limita à eles, a própria liga, intitulada Gangue da Justiça, dispensa apresentações. Eles existem naquele universo e estão ali para combater o crime, ponto final.

Enquanto Snyder focou em universo de deuses entre nós, James Gunn buscou humanizar e exaltar a bondade do Clark. A frase “gentileza é o novo punk rock” descreve bem essa mensagem para o Superman e é isso o que ele representa: esperança e humanidade. Ainda que o personagem tenha virtudes muito ligadas ao patriotismo norte-americano, carregando as cores da bandeira e sempre salvando apenas sua bolha americana, Gunn consegue desconstruí-lo e demonstrar sua empatia pela humanidade, esteja onde estiver, a começar pelo plot principal envolver uma ação do Superman entre duas nações em guerra.

Os conflitos são muito bem explorados e encaixados, demonstrando paralelos com a vida real. Seja pela situação na faixa de Gaza, seja pelo uso descontrolado da mídia para controlar a realidade que é apresentada ao público ou até a situação anti-imigração dos EUA, Superman é certeiro em abordar uma política tão atual e ainda trazer um protagonista politizado, com posicionamentos que transcendem a bolha americana. Ainda que Clark ou Superman seja interpretado com leve ingenuidade, seus valores são muito mais humanitários, não se esquecendo também que, durante os conflitos físicos, ele também se preocupa com outras formas de vida – uma pegada muito especial de Gunn e seu amor pelos animais.

O lugar de Christopher Reeve foi eternizado no seu icônico Superman – O filme (1978), mas David Corenswet também deixa sua marca oferecendo uma interpretação espetacular do personagem em seu desenvolvimento de caráter. Esse Superman é falho; indo na direção contrária da abordagem divina de Snyder, Gunn opta por começar o filme com o protagonista abatido depois da sua primeira derrota. Por outro lado, temos o Lex Luthor de Nicholas Hoult, um homem que planeja milimetricamente todas as suas ações, sem falhas. Sempre um passo a frente, comandando todas as figuras como marionetes. Nicholas Hoult já se demonstrou um ótimo ator por sua versatilidade e agora como Lex, ele cresce na tela com sua vilania e ofusca outros personagens como Ultraman e a Engenheira (María Gabriela Faría).

Embora seja um filme de personagem solo, o elenco é grande e todos tem seus momentos de registrar suas respectivas personalidades. A Gangue da Justiça é apresentada com 4 membros oficiais – Lanterna Verde (Nathan Fillion), Sr. Incrível (Edi Gathegi), Mulher Gavião (Isabela Merced) além do próprio Superman. O Lanterna Verde é ridiculamente superior a qualquer outra tentativa de adaptação do personagem (cof cof estou falando de você, Ryan Reynolds) mas é o Sr. Incrível que brilha aqui. Oscilando entre seriedade e comicidade, o Sr. Incrível tem um papel importante no desenrolar dos eventos, muito bem engatilhados pela Lois Lane (Rachel Brosnahan), que é a melhor representação da personagem. Essa Lois é mais ágil, madura e cutuca a ferida como uma boa jornalista. Sem contar a química absurda entre Brosnahan e Corenswet.

Se o gênero de super-heróis estão passando por um limbo de filmes fast food, Superman veio para trazer a esperança. Seu longa é atual e extremamente divertido de acompanhar. James Gunn orquestra, mais uma vez, uma união de enquadramentos dinâmicos, trilha sonora marcante e uma mensagem espiritual muito mais próxima ao que o herói deveria demonstrar, abrindo mão do tom de perfeição do Superman e abraçando as imperfeições humanas de Clark Kent.