Alien: Earth traz novos ares sem abandonar suas raízes

Os 45 anos de Alien estabelecem fortes mudanças para o cinema por meio da composição de uma protagonista que subverte os estereótipos da época. Se o papel da mulher era o de interesse amoroso ou femme fatale, ou até donzela em perigo, Alien surgiu para questionar essas representações. O tempo passou e a franquia permanece conservadora às origens, passando por poucas inovações em aspectos narrativos e mitológicos, porém respeitando o tropo da protagonista criada em 1979. Hoje, Alien: Earth (Disney+) surge para preencher lacunas deixadas pelos filmes. A série de 8 episódios não se baseia somente ao xenomorfo, mas também desenvolve uma Terra mergulhada no capitalismo puro: O mundo se subdividiu em propriedades das 5 megacorporações. Se dominar o planeta e o espaço não são suficientes para a ganância dos super-ricos, a vida eterna é o próximo alvo de uma corrida hipertecnológica. Alien: Earth expande seu universo sem esquecer do berço que nasceu.

Atenção: o texto a seguir pode conter revelações da trama

A Ripley (Sigourney Weaver) é uma das mais importantes figuras para o cinema. Foi através dela que a indústria reconfigurou o papel da mulheres em filmes do gênero de ficção cientifica e terror, obtendo o potencial máximo a força feminina para além de sua submissão ao masculino. Ripley é apresentada em Alien – O Oitavo passageiro (1979) numa dinâmica perigosa: ela é encarregada pela segurança da equipe, mas suas decisões são oprimidas pelos colegas homens. Não obstante, os mesmos colegas que são brutalmente assassinados pelo alienígena, trazendo um subtexto de violência sexual ligada diretamente a figura masculina. Ripley não só assume a posição de guerreira contra ameaça direta do xenomorfo, mas também assume seu protagonismo diante da representação fálica do alienígena. Tudo em Alien se propõe a questionar papéis de gênero e em colocar a mulher no protagonismo pela sua integridade, enquanto retrata as divergências humanas de Ripley como sua feminilidade e maternidade. Ripley precisou andar para que muitas protagonistas do gênero pudessem correr, incluindo as do mesmo universo. Se analisarmos Prometheus (2012), que possivelmente é o filme que mais foge da temática, a Dra. Shaw (Noomi Repace) é uma cientista em busca do conhecimento da origem da raça humana que demonstra ligações religiosas através de memórias com seu pai. Se em Alien vemos a representação do estupro, Prometheus é o aborto que dá inicio ao caos nas subsequentes criações do xenomorfo. No recente Alien: Romulus (2024), Rain (Cailee Spaeny) é uma jovem decidida a lutar pelo seu irmão sintético, e apesar do filme resgatar a intensidade do terror cósmico do original, aqui é a gravidez que gera uma vida hibrida e monstruosa. Finalmente, chegamos em Alien: Earth, que podemos dizer que é o nascimento, explicitamente representado por crianças em corpos sintéticos adultos e sua protagonista peculiar, a Marcy/Wendy (Sidney Chandler).

Esse nascimento cria uma metalinguagem com a própria franquia. É o nascimento da nova vida dos Garotos Perdidos – como é chamado o grupo de crianças em corpos sintéticos – e o nascimento de novos horizontes na história. A série se passa no planeta Terra dominado por 5 megacorporações: Weyland-Yutani, Prodigy, Threshold, Lynch e Dynamic. O contexto se fecha no embate tecnológico conspirado por Boy Kavalier (Samuel Blankin), o CEO da Prodigy que a fundou quando ainda criança, um super gênio. É ele quem comanda o projeto dos Garotos Perdidos em busca da vida eterna. Em um mundo dominado por grandes companhias, garantir humanidade é uma tarefa difícil visto que a frieza com que as relações humanas são retratadas se demonstram apenas números para o xenomorfo matar e para as corporações contabilizarem. É nisso que conceitos básicos da humanidade são abandonados para dar espaço a três novas formas de vida artificial: humanos sintéticos, ciborgues e híbridos. Independente de quem seja, a ganância é o que move as discussões por aqui, os interesses próprios movidos pela sede de poder desenham relações de manipulação e violência, outras facetas dos problemas que a saga já aborda nos filmes. Só que, aqui, seguimos num ritmo lento, contendo o caos para momentos oportunos e dando mais espaços para moldar esse universo tão complexamente macabro. Tudo isso apresentando companheiros alienígenas do xenomorfo, digno até de uma batalha de igual-para-igual. Contudo, a grande virada de chave recai sobre os Garotos Perdidos.

A fragilidade da vida humana é descartada para abrir espaço ao futuro sintético e tecnológico. A proposta de amadurecimento das crianças se dá de maneiras violentas, seja pela forçada inserção da consciência deles em corpos adultos, seja pela relação tóxica que a presença masculina traz com muito empenho. A ameaça mais imediata, curiosamente, não é dos xenomorfos – visto que eles sequer se interessam por objetos sem vida biológica – mas, sim, dos homens que envolvem a disputa de poder. Ainda que Yutani apareça pela primeira vez nesse conflito, ainda são os homens que assumem a posição opressora contra os protagonistas. O ciborgue Morrow (Babou Ceesay) e o androide Kirsch (Timothy Olyphant) são boas colocações, dois instrumentos das companhias que subulgam os Garotos Perdidos. Objetivos diferentes, porém métodos parecidos. Vale lembrar de Hermit (Alex Lawther), irmão da Marcy, que tem instintos superprotetores sobre sua irmã e, é claro, o próprio Boy Kavalier pode ser adicionado nessa equação. A dinâmica desses personagens se conduz num ritmo tenso, porém devagar, indo na direção contrária da dose de adrenalina de muitas obras atuais.

Finalmente, a revolução dos Garotos Perdidos simboliza a maturação desses personagens, forçados a crescer antes do tempo. O papel de Marcy, ou Wendy, é quase como uma figura maternal. Tanto simbolicamente, por assumir o papel de líder, quando literalmente, por se comunicar com os xenomorfos ao ponto de controlá-los. Assim como Wendy se torna a mãe dos Garotos Perdidos na história de Peter Pan, Marcy lidera a série assumindo inúmeras responsabilidades e se vê num mundo que não pode tomar suas próprias decisões. Porém, motivada pelos suas próprias intenções, Marcy aos poucos toma controle da narrativa elaborada por seus “criadores” assim como Ripley dá a volta por cima em Alien – O Oitavo Passageiro, ambas se tornam comandantes de seus respectivos destinos. O xenomorfo, que se apresenta como uma figura fálica de violência extrema e nenhuma consciência, desta vez não apresenta a mesma ameaça já que Marcy destravou o próximo nível da evolução humana: a comunicação com o organismo perfeito. É nesse cenário que os Garotos Perdidos cortam as amarras de Peter Pan e optam pela liberdade de escolha. Nesse caso, a escolha de crescer.

Alien: Earth é uma proposta interessante para a expansão de seu universo. A série apresenta arcos bem amarrados que concluem uma versão pessimista do nosso planeta no futuro. Situado antes do filme do Oitavo Passageiro, ele consegue segurar bem as amarras da franquia sem, necessariamente, recorrer ao nostálgico com personagens antigos como em Alien: Romulus. É uma boa maneira de manter a saga viva, apresentando novos plots e personagens que expandam sua mitologia, trazendo novas ameaças em formas de vida alienígena. Contudo, ainda assim, respeitando as raízes que fundaram esse universo. O subtexto que torna Alien rico principalmente nas suas protagonistas femininas.