A segunda temporada de One Piece chegou essa terça-feira (10) e já deu o que falar nas redes sociais. O live action é uma adaptação do anime e mangá de mesmo nome, dando continuidade às aventuras de Luffy (Iñaki Godoy) e sua tripulação: Nami (Emily Rudd), Zoro (Mackenyu), Sanji (Taz Skylar) e Usopp (Jacob Gibson) e, agora, com a adição de Vivi (Charithra Chandran) e Chopper (Mikaela Hoover). A segunda temporada aborda a entrada dos Chapéus de Palha na Grand Line e suas aventuras pelas ilhas, enfrentando as ameaças do Baroque Works, a perseguição militar da Marinha e a introdução de novos antagonistas como Smoker (Callum Ker) e Miss All Sunday (Lera Abova).

One Piece é um dos maiores animes já feitos, tanto em extensão da história quanto em popularidade. É inegável seu impacto na cultura pop através dos traços exagerados de seu autor, Eiichiro Oda, bem como toda a sua construção de mundo e sua mensagem política através das páginas de mangás que conquistaram uma legião de fãs ao redor do mundo. O seu live action veio sob muita incerteza; depois de anos com adaptações duvidosas de anime – com algumas surpresas aqui e ali como Samurai X e Alice in Borderland – One Piece chega sem rodeios, sem vergonha de ser o que é, assumindo muita paixão pela obra. É válido dizer que a percepção entre quem é fã e quem não é pode diferir ao assistir uma adaptação, sempre tendo a velha questão da fidelidade em jogo, mas é bom ressaltar que quem vos escreve não acompanha o anime original, então será uma percepção limpa, sem comparações.
Depois que a primeira temporada de One Piece me apresentou um universo majoritariamente marítimo, onde frutas podem te dar poderes, pirataria acontece livremente e o mundo é liderado por um governo sem centralização de poder – até então – é difícil não simpatizar com personagens tão carismáticos e uma história que, no fim das contas, preza pela amizade e companheirismo. Nessa segunda temporada, a lealdade de Luffy por sua tripulação fica mais ressaltada pela subsequente ameaças que surgem pelo caminho, demonstrando que, conforme a aventura em busca do One Piece avança, muitas outras questão são postas em cheque. Dentre elas, a vida de seus companheiros que são igualmente caçados pelo governo. O que chama atenção é que, independente das diferenças entre os personagens, a amizade e a lealdade sempre são o ponto de união da trama, deixando a série com um clima leve.

Ainda que não seja um live action infantil, – tem palavrões, tem monstros esquisitos, tem violência, tem homem seminu – o tom é equilibrado entre seriedade e tosquice, já que One Piece vai na contra mão de muitas séries por ai que apostam no realismo, abraçando o tom nonsense da obra. De que adianta adaptar uma fantasia e ter uma direção controlada na realidade em que vivemos? One Piece é um anime, em outra realidade, sob outras leis que regem seu universo, portanto merece ser abordado como tal. É nisso que a produção se demonstra apaixonada pela história que está contando e traz uma direção mais solta em cada episódio. Essa falta de vergonha em não se apegar ao realismo torna o live action interessante e gostoso de acompanhar.
Com isso, a tradução entre animação e live action se constrói nos detalhes. O universo de One Piece em live action é colorido, animado e tosco – no sentido mais positivo da palavra. Além do visual, vale lembrar da identidade que aposta numa maneira mais gráfica de apresentar os personagens, com cartões de visita ou com pôsteres de procurado. Outro ponto que chama atenção é o figurino, que alterna entre as roupas características dos personagens e escolhas alternativas que respeitam o estilo ou a paleta de cores. E se falar de caracterização já não fosse o suficiente para exemplificar o tom nonsense da obra, temos as figuras e os cenários completamente distintos entre si. Ora nos aventuramos numa ilha pré-histórica, ora numa ilha coberta de neve com um médico rena mutante. Cada personagem, cada mutação e cada super poder apresentam aspectos únicos que, para quem não está acostumado ou tem dificuldade de deixar a imaginação agir, pode estranhar. Talvez por isso que One Piece não seja uma obra para todos os gostos – mas para quem gosta, é um prato cheio de diversão!

Outro ponto que chama atenção é a organização dos plots. Mesmo para alguém que não conhece a história original, como eu, não é difícil de entender a extensão de One Piece só pelo tempo em que o mangá tem sido escrito. O live action tem um grande desafio em mãos: como resumir tantos plots em 8 episódios sem correr, mas também respeitando o original? Como adaptar mais de 20 anos de história em algumas temporadas? E o principal: como fugir de um possível cancelamento se a aposta mais cara da Netflix não der certo? Muitas incertezas, mas, ao meu ver, a linha que a segunda temporada seguiu deixou bem amarrado os subplots que se seguem na busca pelo tesouro. Pelo pouco que sei, entendo que ainda existe um fator político a ser desenvolvido e que muito mais personagens ainda estão por vir para compor a riqueza de detalhes dessa obra. A sensação que me deu é que a série resumiu os arcos mais importantes da aventura dos Chapéus de Palha sem deixar de fora os pontos cruciais para o desenvolvimento de universo. O ritmo dos episódios e seus conflitos são bem dosados, construindo camadas não só nos personagens, mas na trama em si, o que ajuda a não sentir a duração dos episódios.
One Piece não é uma adaptação perfeita, mas é na sua imperfeição que a torna uma série deliciosa de se acompanhar. O respeito pela essência, aliado a um elenco carismático e uma produção sem vergonha de assumir sua paixão, torna a série um elo entre o público que não simpatiza com anime e a obra original, construindo, para si, uma identidade própria.

