Pânico 7 | Quando uma franquia se torna sua própria crítica

Pânico é uma das mais populares franquias de terror do cinema. Ela nasceu como uma maneira de subverter o gênero, trabalhando a metalinguagem do terror e seus clichês. Nisso, nasceu uma das mais icônicas final girls do cinema, Sidney Prescott, bem como uma das figuras mais chamativas do terror, o Ghostface. Wes Craven deixou seu trabalho de herança a partir do quarto filme (sua última obra antes de falecer) e outros diretores tomaram posse, surgindo um reboot a partir do 5. Com isso, surgiram os defeitos mais gritantes do cinema atual, disfarçados sob a tal metalinguagem tão característica da franquia. Após o sucesso das novas protagonistas, Melissa Barreira e Jenna Ortega – que eu tenho várias críticas, mas vamos focar no sucesso amplo de Pânico (2022) e Pânico VI (2023) – ambas foram bem estabelecidas como as novas faces da franquia. Após a manifestação pró-Palestina de Barreira, ela foi retirada da produção, seguido pela saída de Ortega, deixando em jogo o futuro da franquia no 7. Junte isso à saída dos dois diretores de Pânico (2022) e Pânico VI (2023), Tyler Gillet e Matt Bettinelli-Olpin. Já dá para imaginar a bomba que sairia desse resultado, não é mesmo?

Atenção: O texto a seguir pode conter spoilers da trama!

Neve Campbell já demonstrou seu cansaço por interpretar o looping de Sidney Prescott. Ela e Courtney Cox reprisam seus papéis – com um cachê invejável servindo como contenção de danos – para tentar sugar o restinho de dignidade que sobrou da franquia. Em Pânico 7, Sidney leva uma vida pacata com sua família em Pine Grove quando novamente é ameaçada por um Ghostface, dessa vez tendo sua filha como alvo e o retorno de um velho amigo: Stu (Matthew Lillard), o primeiro Ghostface junto com Billy Loomis. Com isso, sua vida vira de cabeça para baixo quando uma série de assassinatos passam a acontecer na cidade. Sua filha, Tatum (Isabel May), é uma jovem indefesa cujo relacionamento conturbado com sua mãe é colocado em jogo diante da sobrevivência de ambas.

Pânico sempre gostou de brincar com a linguagem de terror, sendo digno de criar uma franquia de filmes dentro de seu universo chamada Facada. O que começou com um tom satírico recebeu uma pitada de humor com o tempo, até beirar o ridículo. Pânico 7 aparentemente se confundiu com Facada 7, uma abordagem desprimorosa que outrora foi usada para criticar os clichês da obra. Dessa vez, o alvo foi o uso indevido da IA e, se o objetivo era mostrar o quão ridículo é usar deep fake, acho que o filme foi bem sucedido. Nada me preparou para as cenas bizarras de Stu e todo o malabarismo narrativo no seu plot como tentativa desesperada em se agarrar a nostalgia para salvar a obra.

Não é de hoje que é discutido a falta de criatividade em Hollywood e suas doses absurdas de nostalgia, mas vamos combinar que isso não está mais surtindo efeito? Não adianta ter a nostalgia como muleta se nada em volta consegue sustentar a história. De que adianta trazer Ghostfaces anteriores (Laurie Matcalf, Scott Foley) e até Dewey (David Arquette) sob um pretexto tosco de uso de IA e uma caçada sem sentido nenhum por Sidney e Tatum? Quando eu sinto que trago mais perguntas do que respostas é porque, infelizmente, a obra não funcionou para mim. Em certos momentos, a sensação era de vergonha alheia.

Wes Craven durante seus quatro filmes também brincou com a linha tênue entre terror e comédia, sendo o quarto filme o mais “farofa”, mas que soube trabalhar seus conceitos satíricos baseados no seu contexto com muita honestidade. Mas Pânico 7 é um show de horrores – não ironicamente. A passagem de legado de mãe para filha não surte efeito; essa passagem já havia acontecido com as irmãs Carpenter (Barreira e Ortega). Por mais que eu me divirta muito com o Ghostface apanhando e ainda tendo forças para matar alguém, esse looping se tornou cansativo e previsível.

E por falar em previsibilidade, será que nos bastidores eles escolheram as piores opções de personagens possíveis só para não ficar tão obvio? Ou será que realmente não tinham ideias melhores? O estereótipo de “trabalhador de um hospital psiquiátrico que fica fascinado por crimes e violência” já foi um tiro no pé em Halloween (2017), aqui não seria diferente. A revelação dos assassinos é sem graça, patética, xoxa e capenga. Ouso dizer que são os piores Ghostface da franquia.

Pânico 7 era uma tragédia anunciada. Seus problemas de produção sucessivos demonstraram uma desesperada contenção de danos que levaria a uma obra apelativa. É mais um exemplo de como nostalgia não funciona mais como muleta e algo com substancia é necessário para sustentar um roteiro minimamente “assistível” em tela. Nem o retorno do elenco inteiro dos anteriores seria capaz de salvar.