Edgar Allan Poe era um grande mestre do terror. Através do seus contos, ele passava uma mensagem melancólica sobre a vida e, principalmente, a morte, brincando com diversos elementos irreais e construindo atmosferas moribundas. Ainda que seus contos não envolvam personagens complexos ou narrativas muito longas, Poe está no imaginário das pessoas pela brutalidade e horror psicológico estabelecido pelo conjunto de suas palavras. Refletindo sua vida triste e medíocre, é indiscutível que, se não fosse por Poe, o terror não seria o que é hoje.

Nem todas as obras mainstream sabem captar a essência das obras de Poe – entretanto, a adaptação de A Queda da Casa de Usher se destaca. Os oito episódios da minissérie utilizam de elementos de diversos contos de Poe, não só o da Casa de Usher, mas também O Gato Preto, A Máscara da Morte Rubra, O Corvo etc. Cada elemento é bem posicionado de acordo com alguma característica da família Usher. Seja o gato que foi brutalmente assassinado durante uma “bad trip”, seja a morte mascarada durante uma rave (ou orgia, se preferir), cada elemento é bem encaixado, construindo as camadas da família multibilionária.
A Queda da Casa de Usher desenvolve a futilidade da vida bilionária, junto com suas consequências. Vidas vazias preenchidas por drogas, sexo e violência moldam as críticas acerca da indústria farmacêutica cujo líderes enriquecem seus bolsos sob a premissa de “estarem mudando o mundo” enquanto, na prática, causam apenas mais mortes. Aliás, Mike Flanagan conduz diálogos muito pontuais quando os irmãos Ushers conversam entre si, tendo noção de sua própria mediocridade.

Enquanto o conto original gira em torno de dois irmãos moribundos que morrem junto com sua casa, a série vai longe nas nuances da família. E, claro, não seria Edgar Allan Poe se não tivesse a presença dela, a Morte em pessoa. Morte com M maiúsculo, pois ela é uma personagem muito viva e bem interpretada por Carla Gugino (aliás, que mulher linda!). A Morte tem momentos pontuais que servem como uma reflexão para cada Usher. Afinal, existe aprendizado maior para um bilionário se não a inevitável morte?
Apesar de Mike Flanagan já ter um nome bem estabelecido na indústria, A Queda da Casa de Usher não é o tipo de série que agrada a todos. Os episódios carregam muito do horror, do gore, conotação sexual; não é fácil de acompanhar, mas se você der uma chance, saiba que acompanhará o discorrer dramático de personagens singelamente multifacetados, com terror atmosférico muito bem conduzido ao longo dos episódios. Mesmo que os acontecimentos estejam fora de ordem, Flanagan não poupa esforços ao unir toda sua bagunça em um único nó, conseguindo atingir sensações muito satisfatórias.
A série conta com o elenco das obras anteriores de Flanagan como: Kate Siegel, Ruth Codd, Samantha Sloyan, Rahul Kohli, e alguns nomes surpresas, Mark Hamill, Bruce Greenwood e Mary McDonnel.

