Análise: ‘De onde eles vêm’, de Jeferson Tenório

De onde eles vem de Jefferson Tenório.

É basicamente impossível traduzir em palavras a montanha de sentimentos que foi ler ‘De onde eles vêm’, o recente lançamento de Jeferson Tenório, pela Companhia das Letras. Foi minha última leitura de 2024, e embora tenha ficado em crise ao fechar o livro nas últimas horas do último dia do ano, cada palavra lida, cada página virada valeu a pena. A obra foi um baque, uma leitura forte e, ao mesmo tempo, delicada . À medida que ele traz uma beleza em narrar o simples, o rotineiro, ela é sofrida e apresenta muita dor.

Na trama central, conhecemos e convivemos com Joaquim, um jovem negro e sonhador, apesar de todas as dificuldades, e limitações que moldam o seu dia a dia, ele é um jovem sonhador. Seu primeiro plano? Ser poeta.

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JEFERSON TENÓRIO APRESENTA SEU NOVO ROMANCE, “DE ONDE ELES VÊM” ⚡️ Após duzentas mil cópias vendidas e o prêmio Jabuti de “O avesso da pele”, Jeferson Tenório apresenta seu novo romance: “DE ONDE ELES VÊM”, uma história sobre preconceito e luta, exclusão e sonho, com a lei de cotas raciais como pano de fundo. Neste vídeo, o autor apresenta o livro, que se passa em Porto Alegre, por volta dos anos 2000, apresenta o despertar racial do narrador, Joaquim, em meio a um ambiente hostil. “DE ONDE ELES VÊM” está disponível on-line e nas livrarias de todo o país. Garanta seu exemplar e boa leitura! 📚 Sobre o livro: Órfão, desempregado, sem dinheiro e responsável por cuidar da avó doente, Joaquim tenta a todo custo manter vivo seu amor pelos livros e pela literatura. Romance de formação de um leitor, este é o retrato de uma jornada feita de obstáculos num momento em que políticas para amenizar desigualdades eram vistas como problema, e não possibilidade de futuro em nosso país. 🎨 Capa de Alceu Chiesorin Nunes com arte de Maxwell Alexandre 📽 Este vídeo foi gravado no evento de lançamento do livro, em outubro de 2024, no Sesc 14 Bis, em São Paulo. #companhiadasletras #literaturabrasileira #booktokbrasil

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Após ingressar no ensino superior através do sistema de cotas, política que estava iniciando no período em que a história se passa, cursava letras para se tornar escritor. Mesmo vivendo o sonho de ser aluno de universidade pública, conseguir a vaga não era suficiente, toda a problemática do livro transita nesse aspecto: as falhas desse modelo de ingresso. Jeferson esboça toda essa problemática não apenas dizendo que não funciona. Detalha a partir de uma ficção, mas talvez nem tão inventada assim, afinal de contas de Tenório veio do sistema de cotas, teríamos aí um ownvoice?

Nosso protagonista Joaquim, vivia com a tia e cuidava da vó com demência, bancar da faculdade não era uma opção. A realidade dele não era a mesma de outras pessoas de sua classe, sobrevivia com a mísera aposentadoria da avó e o pouco salário das faxinas da tia. Na universidade teve seu primeiro baque: ser tachado perjorativamente de cotista. Além de ser o único negro da turma, nesse momento Jeremias encontra a solidão mesmo numa turma repleta de pessoas. Através de olhares, atitudes, palavras, a própria presença e o questinamento do próprio potencial.

A solidão deu lugar à melancolia, tristeza e a falta de fé em si mesmo. De tanto sentir na pele, passou a acreditar que era só um cara medíocre. Com dificuldades de acesso aos conteúdos, livros obrigatórios e extras sugeridos pelos docente, ele ficava cada vez mais para trás.

O mínimo de afeto chegou em forma de uma [conturbada] amizade. Moça branca-padrão rica, mundos completamentes distintos. Aquela amizade [para nós, leitores] se monstrou extremamente tóxica desde o início, e em pouco tempo se tornou um namoro. A diferença racial era um grande obstáculo, devido a complexidade dos diferentes pontos de vista, vivências, culturas, questões socioeconômicas, estruturais e políticas, todos fatores que impactavam a saúde daquela relação.

Joaquim levou um tempo para perceber o quão mal aquilo era, e ainda assim, insistiu. Ao meu ver, porque a falta de afeto era muito maior do que um afeto negativo. Se aguarrou às migalhas que recebeu. A partir daquele amor interracial, viu uma possibilidade de escapar da sua realidade, ignorar o estado de saúde de sua avó, ignorar que não conseguia um emprego, ignorar que era julgado por colegas e professores. Sua vida não ia bem, os pequenos empregos que conseguia eram subalternos e disponíveis apenas em horários que conciliavam com as aulas, o que o obrigou a trancar o curso.

Finalmente, desfez o relacionamento, nesse ponto vemos de forma objetiva o quanto o sistema de cotas não deve ser apenas a porta de entrada na universidade. Joaquim passou a acreditar que seus sonhos eram bobagens, não eram feito para pessoas como ele. Como se não bastasse, a saúde da sua vó piorou. A sensação de frustrações o levou a dependência alcoólica, assumiu uma personalidade completamente diferente dele mesmo, perdeu a fé nos outros e em si mesmo.

Com uma pequena rede da tia e vizinhos, com muito esforço e motivação de não sucumbir, conseguiu se reerguer, mas claro que nada disso era suficiente. Voltou a trabalhar em empregos subalternos e sem perspectiva de voltar à faculdade.

Voltando um pouco no passado, ainda no período da faculdade havia escrito um conto e inscrito em um concurso internacional, em Portugal, no qual ele tinha sido finalista. Para o eveto de premiação, ele teria de viajar até o país, e mesmo com a despesa da viajem sendo custeada pela universidade, era necessário gastar muito dinheiro, em uma moeda que não era a sua, e o pior: teria de se ausentar do trabalho e correr o risco de ficar desempregado, novamente. Ele correu o risco e foi, conheceu novas pessoas, novas línguas, se sentiu pertencente, porém ainda sem perspectiva de futuro. Sem a perspectiva de retornar à sala de aula, ainda cheia de sonhos, mas sem os efetivos meios de os colocar em prática.

Para mim, é esse o ponto que Tenório gostaria de chamar a atenção. O sistema de cotas, por si mesmo, não é um milagre, é apenas o primeiro passo. Se não há outras formas de nos manter dentro desses espaços, como sobreviveremos? Como Joaquim irá sobreviver? Devemos simplesmente negar nossos sonhos e aceitar o sistema?


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