
Existem filmes que não terminam quando os créditos sobem, eles deixam no ar perguntas sobre os caminhos que um universo compartilhado ainda pode seguir. Outros conseguem algo ainda mais importante: lembrar os motivos que fazem um personagem atravessar gerações e ser um clássico. Homem-Aranha: Um Novo Dia faz um pouco dos dois, mas acerta de verdade quando escolhe olhar para Peter Parker.
Tom Holland veste o uniforme novamente em um filme que finalmente entende o que muita gente sentia falta em sua versão do herói. Nesse novo projeto existe carinho genuíno pelo personagem em cada detalhe, da ambientação às referências espalhadas. É quase uma carta de amor para suas diferentes fases. Senti que a obra é capaz de conversar com fãs dos quadrinhos, dos jogos lançados para PlayStation e até das adaptações estreladas por Tobey Maguire e Andrew Garfield.
Mesmo sendo muito fã do personagem, nunca consegui criar um grande apego por Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), Longe de Casa (2019) e Sem Volta para Casa (2021). Embora divertidos, os filmes dirigidos por Jon Watts muitas vezes me passaram a impressão de priorizar o universo da Marvel acima da essência do herói. Faltava alma, faltava identidade. Em muitos momentos, parecia que bastava trocar Peter por qualquer outro personagem das páginas de uma HQ e a história continuaria funcionando.

Agora, sob a direção de Destin Daniel Cretton, a sensação é completamente diferente. O diretor parece compreender que o verdadeiro conflito do Homem-Aranha nunca esteve apenas nos vilões, mas no peso de ser Peter Parker. Afinal, um não existe sem o outro. Mas como um jovem com tantas dificuldades consegue impedir que seu lado mais obscuro tome conta?
O esquecimento coletivo talvez seja a pior coisa que poderia acontecer com alguém cuja maior força sempre foram as relações humanas e seu lado mais amigável. Com certeza, o maior acerto foi finalmente levar esse vazio às últimas consequências em relação ao garoto que passou muito tempo como pupilo secundário em suas próprias histórias.
Peter agora está sozinho em uma Nova York que respira como personagem e não apenas como um cenário de efeitos visuais sem graça. Entre prédios, becos e balanços de teia que ele reencontra sua essência. Sem depender de Tony Stark, de tecnologia ou de grandes missões e acessórios, vemos novamente um jovem tentando equilibrar a vida comum com seu alter ego, pagando o preço de suas escolhas e percebendo que crescer também significa carregar perdas.
As cenas de ação estão entre as melhores já feitas para o Homem-Aranha no cinema. A movimentação nas ruas transmite velocidade, peso e criatividade. Para reforçar a sensação de que este realmente é o herói da vizinhança, as cenas ao lado da personagem interpretada por Liza Colón-Zayas funcionam muito bem.
A fotografia e a ambientação ajudam a construir o clima e atmosfera, enquanto a trilha sonora acompanha a jornada com sensibilidade. A inclusão de faixas de Bad Bunny, Tame Impala e Steve Lacy trouxe personalidade.
Outro acerto está nas relações entre os personagens. A dinâmica com o Justiceiro funciona muito melhor do que eu imaginava, aproximando dois personagens marcados pela perda mas que lidam com ela de maneiras completamente diferentes. Essa química inesperada rende alguns dos melhores momentos do filme. As piadas características do estilo Marvel aqui aparecem na medida certa, sem transformar cada momento dramático em uma sequência de alívio cômico.
Hulk também está nessa nova jornada de Peter e, em minha opinião, aparece em sua melhor versão entre as adaptações já realizadas até agora. Já a personagem de Sadie Sink ocupa um lugar importante durante os atos e amplia ainda mais o envolvimento emocional da história.

Em alguns momentos, é possivel sentir aquela velha marca do estúdio, preocupada em mover várias peças para preparar os próximos capítulos do universo compartilhado. São muitas tramas acontecendo ao mesmo tempo e alguns aprofundamentos iniciados no começo acabam ficando pelo caminho. Do meio para o ato final, perde um pouco da força. Certas resoluções parecem apressadas e alguns efeitos visuais deixam a desejar. Ainda assim, saí do cinema com uma sensação boa.
Esse lançamento devolve para Peter Parker o centro da própria história. É um filme que entende que o Homem-Aranha nunca foi apenas sobre salvar o mundo, mas sobre continuar sendo humano quando parece que já não resta mais nada. E, sinceramente, era exatamente disso que o personagem precisava.


