“O Morro do Ventos Uivantes” – A Fanfic de Emerald Fennell

O Morro dos Ventos Uivantes (1847), ou Wuthering Heights em inglês, é um dos maiores clássicos da literatura inglesa que retrata a relação tóxica de amor e ódio entre Heathcliff e Catherine Earnshaw nessa cama de gato que envolve um amor impossível separado por classes sociais. Depois de muitos anos de adaptações para o teatro, TV e cinema, só desse último contando com pelo menos 10 filmes, do cinema mudo ao internacional; Wuthering Height de Emily Brontë passou por diversas ideias, criadores e artistas. Até chegar nas mãos de Emerald Fennell, diretora e atriz muito conhecida pelos seus recentes filmes, Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), além de seu trabalho na TV com Killing Eve (2019), todos lhe rendendo vários prêmios e grande repercussão internacional. Aqui, sua versão do livro de Brontë recebe aspas. Não estamos falando do original, estamos falando de “O Morro dos Ventos Uivantes”, sua reinterpretação atualizada, com várias liberdades e… distorções da história.

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Os filmes de Emerald Fennell me trazem uma sensação curiosa… aquela que me faz pensar “hmm isso saiu da mente de uma mulher branca e rica”. Fennell repete um discurso já batido em seus filmes; ela aborda conflitos sociais como em Saltburn, um garoto pobre se aproxima de uma família rica com segundas intenções, ou Bela Vingança, que conta sobre a revolta de uma mulher que vive com o fantasma de sua amiga estuprada que nunca conseguiu justiça. Seria ótimo se sua visão não viesse carregada por um viés elitista que, em “O Morro dos Ventos Uivantes”, cai na hiper sexualização disfarçado de liberdade sexual feminina.

O fator de fidelidade não será levado em consideração, visto que os problemas do filme não são as liberdades que Fennell tomou ao abertamente admitir que sua versão é alternativa, essa é sua visão de quando leu o livro e imaginou os fatos da sua maneira. A questão é que a diretora, que também assina o roteiro, não apresenta repertório o suficiente para retratar uma realidade que fuja de si própria. Fennell é limitada em compor personagens multifacetados e, pior, quando o conflito entre Heathcliff e Cathy é envolto por uma corda bamba e delicada que é a sociedade da época e suas nuances entre as classes. Sendo assim, seu universo é totalmente fantasioso; ele não expressa a vivacidade da época e não se preocupa em desenhar os personagens de maneira aprofundada. É por isso que sua versão de “O Morro dos Ventos Uivantes”, ao meu ver, é uma fanfic pomposa.

Existe uma porção de filmes atuais que eu apelidei carinhosamente de “filmes de pinterest” que são aquelas obras com muito aesthetic, muitas cores, muito cuidado na direção de arte e fotografia que… não comunicam absolutamente nada a não ser captar o olhar do espectador e fingir que algo está sendo contado em tela. “O Morro dos Ventos Uivantes” é exatamente esse tipo de filme. O figurino não combina com a época retratada, mas combina com a fantasia de Fennell: a extravagância nas cores, nas formas e nos tecidos, bem como toda a arte para compor os cenários e contrastar as ruínas do Morro e a riqueza da casa dos Linton realmente é de tirar o chapéu. Mas tudo isso é feito carecendo de uma alma para a história, sendo um “romance” vazio, muito movido apenas pelo desejo sexual dos envolvidos.

Aliás, se no livro de Brontë, o desejo sexual era implícito, no de Fennell é até explicito demais. Todas as composições de cena são feitos para, de alguma forma, externalizar o desejo sexual principalmente de Cathy, seja pelas costas suadas de Heathcliff expondo suas cicatrizes, seja pelos ovos ou o peixe que rementem aos órgãos sexuais femininos. O filme é movido pelo desejo sexual do casal protagonista, não o seu amor, e isso não necessariamente é um defeito se não fosse pela maneira como esse desejo é abordado.

A começar que algumas dessas cenas não me causaram outra sensação senão a de uma leve vergonha alheia. Novamente, o problema não são as cenas picantes, mas como elas externalizam fantasias da própria diretora colocando diálogos e trocas de calor humanos num contexto sem sentido e, sobre tudo, sem tesão. A escalação de Jacob Elordi me incomodou não pela reclamação pública de mais um whitewashing de Heatcliff (que é, sim, algo a ser considerado), mas pela sua falta de sex appeal. O ator não exibe química com sua parceira de cena, a Margot Robbie, e também não consegue trazer a visão idealizada de Fennell para o personagem. Sinceramente, não acho que o problema seja Elordi, mas, sim, os papéis que o colocam, visto que em Frankeinstein (2025) ele se saiu muito bem vivendo o monstro de Mary Shelley.

Agora, a atuação de Margot Robbie está fora do tom. Sua versão da Cathy é caricata; a sensação é que Robbie, dessa vez, trouxe uma interpretação mais superficial. Novamente, não seria problema se não fosse pelo contexto, pela história adaptada e, principalmente, por ela ser protagonista. Agora, se colocarmos Hong Chau na equação, teremos uma disputa mais justa. Sua versão atualizada de Nelly é, no mínimo, notável por demonstrar seu jogo interno de interesses próprios. O romance de Cathy e Heathcliff pode ser o coração da trama, mas Nelly é a cabeça que orquestra todos os pontos chaves.

Por fim, eu não diria que Fennell deveria ter cancelado e engavetado sua versão de Wuthering Heights, pois toda adaptação tem o direito de passar pelo olhar de seu autor, bem como tem o direito de existir na sua pluralidade. Contudo, esse terceiro filme no seu currículo deixou evidente seus defeitos enquanto diretora que já me incomodaram nas suas produções anteriores. O erotismo que me cativou em Saltburn me repeliu aqui. As fantasias com as figuras do clássico de Emily Brontë soam um ato forçado de atualizar um conto imaginado pela diretora. A real é que, provavelmente, essa fantasia funciona mais na mente dela do que em tela.