Estar sozinho no espaço parece um pesadelo quando pensamos que, em algum momento, uma vida humana precisará ser sacrificada pelo “bem da ciência”. Já sabemos a história de cachorros, gatos, macacos que serviram de cobaia para experimentos de vida fora do espaço, porém, quando as “Grandes Navegações” terem o universo como cenário, seremos nós as cobaias para as jornadas no vazio escuro. Essa ideia corrobora com filmes de terror como Alien, que exploram a ideia do desconhecido. Mas… e se fossemos na contramão? E se a cobaia descobrisse um propósito de vida longe da Terra? É nessa ideia que nasce Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), uma adaptação livro homônimo de Andy Weir, o mesmo autor de Perdido em Marte.

Em Devoradores de Estrelas, Ryland Grace (Ryan Gosling) é um biólogo e professor do ensino fundamental cujo teorias impressionaram a cética Eva Stratt (Sandra Hüller), uma agente do governo encarregada do Project Hail Mary. O mundo está correndo contra o tempo quando uma infecção se espalha pela galáxia; pequenos organismos, chamados de astrofágicos, se alimentam da energia das estrelas e isso resulta no progressivo apagamento no Sol. O resultado? uma futura era do gelo nos próximos 30 anos. Stratt coloca Grace para analisar amostras desse organismos, mas seu jeito peculiar acaba colocando-o na linha de frente do projeto, ao ponto de se tornar parte de uma missão suicida. Ele e mais dois astronautas viajam para um ponto no espaço onde a estrela Tau Ceti demonstra resistência aos astrofágicos. A questão é que a equipe tem passagem somente de ida, pois eles devem recolher o máximo de informação até findar os recursos da nave.
Bom, parece que eu contei o filme inteiro, mas é, basicamente, a premissa do filme. O que acontece quando Grace chega a Tau Ceti joga Devoradores de Estrelas para outro patamar completamente diferente. A escrita de Andy Weir é conhecida por ser um hard sci-fi, ou seja, uma ficção científica extremamente detalhada. Contudo, essa ciência é decodificada na adaptação para dar espaço a outros pontos importantes na trama. Claro que é legal como a ciência é o centro, já que o futuro da humanidade depende da mente brilhante de Grace e suas observações em Tau Ceti, mas melhor ainda é aproveitar uma odisseia espacial sem tantos termos técnicos e ainda se divertindo através das peculiaridades cientificas no espaço. Sabemos, por exemplo, que há a problemática da relatividade durante a viagem de Grace, já que o tempo dele no espaço é diferente do tempo passado na Terra, só que isso não é tratado com tanto peso – é um “detalhe” muito bem colocado, sem tanta dramaticidade, afinal a jornada de Grace acaba sendo outra completamente diferente.

Grace é um homem solitário, não tem família, não tem amigos, mesmo sendo um homem carismático e de bom coração. Ele é o exemplo de funcionário que acidentalmente se torna importante no que faz e carrega o fardo do futuro do seu sistema solar nas costas. Contudo, o que Grace não esperava era que no espaço estava o seu destino, de fato. Quando Grace inicia uma amizade improvável com Rocky, um alienígena de outro sistema adoecido pelos astrofágicos, o longa engata numa espiral de sobrevivência e amizade. A escolha de Ryan Gosling para o papel caiu como uma luva. O ator carrega um carisma que consegue sustentar tanto um humor leve da personalidade de “bobão” de Grace quanto o drama carregado pela suas crises de solidão, medo e lidar com a morte estando anos-luz longe da Terra. Claro que não podemos deixar de citar o elenco de apoio como James Ortiz incorporando a personalidade de Rocky na sua voz eletrônica, um personagem extremamente simpático e cativante que conseguiu me arrancar lágrimas em alguns momentos bem tensos. E também Sandra Huller como aquela antipática que recorre a soluções drásticas por ver em Grace uma salvação para a humanidade.
Nada disso seria possível sem alguns pilares muito importantes para a construção dessa odisseia. Começando pela direção da dupla Phil Lord e Christopher Miller que conseguem orquestrar uma harmonia entre comédia, drama, ciência e existencialismo sem deixar nada forçado, conseguindo trazer momentos marcantes capazes de tirar algumas lágrimas do público (de mim, pelo menos). Não só a temática do filme está bem alinhada como também o visual é estonteante, sendo aquele tipo de obra que é melhor assistir na maior tela possível, com o som mais alto possível, já que a trilha sonora é certeira em alternar entre o silêncio do espaço e o caos musical da aventura de Grace e Rocky. Na sequência, é impossível não destacar o trabalho de Drew Goddard no roteiro ao traduzir toda a ciência de Andy Weir de uma maneira mais “simplificada” – as aspas querem dizer que a ciência é muito presente, só não é “pesada” para entender. Inclusive, apesar de eu não ter lido o livro, pesquisei sobre e achei interessante como Goddard expôs abertamente sobre suas escolhas criativas para o que seria possível caber em tela e o que não seria.
Devoradores de Estrelas apresenta tudo na dose certa. É uma história sobre amizade que desenha os questionamentos humanos de Grace, mostrando-o que seu fardo pode ser uma libertação de tudo o que o atrasava na Terra.

