Michael | A cinebiografia do rei do pop

Descrever quem foi Michael Jackson é uma tarefa complexa. O famoso Rei do Pop não recebeu esse título à toa: sua figura pública, sua genialidade musical, sua estratégia de mercado e sua persona o moldaram, desde criança, a se tornar o artista que foi. Sua vida inteira foi envolta em inúmeras controvérsias, começando pela própria família, onde o patriarca, Joseph Jackson, aplicava castigos severos aos filhos para mantê-los disciplinados enquanto moldava o Jackson 5. Conforme Michael crescia, seu envolvimento com outras personalidades igualmente grandes desenhou sua carreira, com sucessos e polêmicas, tornando-o um artista que transcendia barreiras de gênero e raciais. Até o momento de sua morte, Michael foi gigante: forçou a dessegregação da mídia musical, abriu espaço para novos artistas, criou tendências e sua própria assinatura, enfrentou figuras multimilionárias influentes, e sua simples presença na indústria musical já é uma história longa demais para se contar. Sua vida também foi marcada por intensa difamação pelos tabloides, acusações de pedofilia que até hoje geram controvérsias e seu vício por compras e analgésicos. Tudo isso compõe o iceberg que foi a vida do maior astro da história do pop.

Pois bem, a missão não era fácil. O filme Michael surge com os bastidores já expostos para o público. Não só o filme foi recortado e refilmado no ato final por conta das acusações de abuso sexual infantil, como também teve o envolvimento de (quase) toda a família Jackson na produção. Isso colocou Antoine Fuqua em uma saia justa: independentemente de sua competência ou criatividade, ele foi limitado a seguir uma cartilha. Dessa forma, não é por acaso que temos a presença de Graham King, o mesmo produtor do sucesso Bohemian Rhapsody (2018). Michael segue a mesma fórmula, porém consegue destacar pontos positivos em que o anterior falhou. O mais nítido é como o elenco consegue transcender o roteiro e entregar ótimas interpretações. O protagonista conta com o talento dos iniciantes Juliano Valdi (na infância) e Jaafar Jackson (na adolescência e fase adulta), que conseguem captar os trejeitos na dança, no canto e na forma de agir. Valdi tem uma expressividade e um carisma difíceis de ignorar; ele incorpora muito bem a melancolia do talento de Michael nas primeiras sequências do filme, quase como um fardo carregado até a vida adulta. Além da dupla, Colman Domingo merece destaque por sua interpretação, que tinha tudo para cair em uma caricatura, mas foge pela tangente e sustenta a tensão com sua presença violenta como Joseph Jackson.

O restante do elenco tem pouca participação — os próprios irmãos de Michael se colocam como figurantes de sua história. Ainda assim, as interações entre familiares ocorrem em momentos de respiro entre as apresentações do artista em sua emancipação artística. A presença mais marcante é a de sua mãe, Katherine — não por coincidência, a verdadeira ainda está viva —, e os diálogos entre ela e Michael são, por vezes, bastante expositivos. A sensação é que o filme usa esses respiros para reafirmar o mesmo ponto: que Michael era solitário, meio infantil e tinha medo de seu pai. Por isso, as interpretações de Jaafar e Colman acabam segurando as rédeas da produção. E, quando falamos das apresentações em si, é um show de exuberância, desde os figurinos até os trejeitos do cantor quando se soltava no palco, não muito diferente do que o próprio Michael Jackson era em vida. Toda a sua persona ostentava figurinos caríssimos que comunicavam ao público sua personalidade. A moda é importante na composição do personagem tanto quanto a dança, e Jaafar Jackson entendeu o recado, entregando ótimas performances de seu tio.

Por outro lado, essas apresentações ocupam boa parte do tempo do filme, dando a entender que Michael não passa de um longo show reproduzido. Enquanto a direção se preocupa em dar o máximo de realismo às performances, o restante de sua vida é retratado com bastante clichê — algo irônico, considerando que o que Michael não tinha eram clichês. É de se questionar como um homem tão único, com uma trajetória tão complexa, é homenageado em um filme tão comum. Mesmo que os produtores tenham enfrentado problemas contratuais ou judiciais, se falarmos somente de Michael enquanto artista, ainda sobram várias particularidades para explorar em sua carreira. Pouco se desenvolve sobre a maneira como ele e seu produtor, Quincy Jones, uniram suas mentes para produzir as faixas de Thriller, os curtas icônicos dirigidos por nomes grandes do cinema como Scorsese (Bad, 1987) ou John Landis (Thriller, 1983), ou até sua atuação ao unir as gangues Crips e Bloods na produção de Beat It. Talvez o maior inimigo desse filme seja a montagem, que deixa claro que muito ficou de fora das telas.

Seja você fã ou apenas um ouvinte casual, é impossível não saber quem foi Michael Jackson. Seu legado na música, na dança e na indústria reverbera até os dias de hoje, assim como sua vida pessoal, carregada de episódios de sofrimento, polêmicas, difamação e julgamentos. Sua cinebiografia retrata somente 20 anos de sua carreira e deixa uma sensação de vazio — não pela tristeza de sua história, mas pela falta de consistência em um roteiro fraco e uma direção convencional. A experiência vale pela tentativa de mostrar uma ponta da grandeza de Michael nos palcos e, principalmente, na produção de seus álbuns; contudo, o filme não se abre para explorar as invenções do próprio artista retratado.