Finalizei a leitura de Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, com muitas emoções e reflexões. Apesar de ser uma novela curta, a obra é bem construída e consegue provocar questionamentos que ultrapassam as páginas. Por isso, mais do que apresentar uma resenha sobre seu enredo, gostaria de partir de uma reflexão específica: o que acontece quando a arte passa a ocupar um lugar em uma sociedade que só reconhece valor naquilo que pode ser quantificado?
Na história, acompanhamos uma sociedade em que praticamente tudo é calculado. As palavras utilizadas, os pensamentos, os gestos e as ações dos indivíduos parecem obedecer a uma lógica de produtividade e economia. Nada deve ser desperdiçado, nem mesmo o tempo. Essa organização também aparece na própria escrita de Afonso Cruz: as frases são curtas e objetivas, acompanhando a maneira como os personagens se comunicam. Até a linguagem parece submetida à necessidade de poupar recursos.
Afinal, naquele universo, tudo precisa ter uma finalidade. E não estou falando apenas de um fim como encerramento, mas de finalidade no sentido mais literal: para que serve e o que ganhamos com isso?

É justamente essa lógica que entra em conflito quando a protagonista manifesta o desejo de comprar um poeta. A reação das pessoas ao seu redor é praticamente imediata: qual seria a utilidade de um poeta? Ele não produz lucro, gera despesas e, aparentemente, não oferece nenhuma vantagem prática para aquela família.
O poeta apresenta à protagonista outras possibilidades de pensamento, especialmente por meio das metáforas. Ela começa a compreender que as palavras não precisam carregar apenas um significado literal, assim como as ações não precisam estar sempre subordinadas a um objetivo prático. É como se uma pequena semente de curiosidade fosse plantada. A protagonista passa a observar o mundo de outra maneira e descobre belezas em lugares onde antes enxergava apenas funções, tarefas e metas.
Uma das questões mais interessantes da narrativa aparece na relação da mãe da protagonista com o poeta. Desde o início, ela demonstra resistência à presença dele e faz questão de expressar seu descontentamento. Ainda assim, mesmo sem reconhecer ou admitir, também acaba sendo atravessada por aquela experiência. A convivência com a arte provoca questionamentos que chegam a pessoas que, aparentemente, não estavam dispostas a recebê-la.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores potências da obra: a influência da arte nem sempre acontece de maneira consciente ou imediata. Às vezes, ela se manifesta em pequenas mudanças de comportamento, naquilo que começamos a questionar e até nas coisas que passamos a perceber sobre nós mesmos.
A protagonista passa a identificar tarefas que realiza automaticamente, também passa a ampliar seu vocabulário, ganha repertório, sensibilidade e possibilidades. Passa a enxergar detalhes, construir relações entre ideias e experimentar uma maneira menos rígida de estar no mundo. De certa forma, sai da bolha em que vivia e começa a perceber que a realidade pode ser muito maior do que aquilo que lhe ensinaram a reconhecer.
Terminar essa leitura me fez pensar sobre o quanto estamos acostumados a controlar, mensurar e justificar nossas ações. Vivemos em uma realidade que frequentemente transforma produtividade em medida de valor, nesse cenário, a arte pode parecer supérflua, um luxo ou algo que só merece espaço quando oferece algum retorno.
Mas, no fim das contas, a arte não precisa apresentar resultados imediatos, gerar lucro ou cumprir uma função para transformar a maneira como nos relacionamos com o mundo. Pode nos ensinar a observar, questionar, imaginar e reconhecer possibilidades que antes não conseguíamos enxergar.

